O mocinho e o vilão, a vítima e o algoz: qual o papel desempenhado pelas partes no conflito judicial?

20.03.2018

É certo que o processo judicial, aqui analisados de natureza civil, é instrumento para efetivação de direitos e busca de soluções. Quando não é possível sua realização de forma consensual, ajuíza-se determinado pedido contra alguém, instaurando-se uma relação processual composta necessariamente por autor e réu, podendo em cada posição, figurar uma ou mais pessoas.

 

O Juiz participa da referida relação processual atuando como representante do Estado. Sua função é gerir o processo para a busca da solução sobre a controvérsia exposta e a pacificação social.

 

E o que se busca afinal, com um processo judicial?

 

Dentro de uma perspectiva sistêmica, são inúmeros os fenômenos observados, revelando que em algumas vezes, há uma intenção inconsciente movendo as partes, que apresentam uma postura de apontar ao outro o papel de algoz:

 

 “(...) podemos asseverar que, com extraordinária frequência, um sentimento colérico se disfarça em atitude justiceira, e assim os excessos da vingança tomam o nome de atos reparadores. Quem duvide desse fato (que prejudica o conceito estabelecido de equanimidade, que deve servir de essência definidora dos atos realmente justos) pode perguntar a si próprio se todo o imenso dispositivo da Justiça Estatal ou Oficial funciona equitativamente para premiar e castigar. Evidentemente, terá que responder que nossa Justiça é fundamentalmente penal: sempre que alguém recorre a ela é contra alguém ou alguma cousa.” [1]

 

Assim, movidas pelo desejo de ter razão e/ou provar o quão sofrimento o outro lhe causou, o objetivo de solução acaba sendo substituído pelo ideal distorcido de confirmar que foram injustiçadas, enfim, vitimadas pelo outro ou por uma situação.

Ressalte-se que os termos “vítima” e “algoz” aqui utilizados, referem-se tão somente a sentimentos secundários alimentado por ideias e percepções que os fatos externos causaram:

 

“O sentimento secundário quer impedir a ação. (...). Nós os seguramos firmemente porque servem para impedir a ação. (...) em face dos sentimentos secundários nos sentimos impotentes e também zangados. Sentimo-nos usados. Através dos sentimentos secundários uma pessoa atrai a atenção para si. (...) O sentimento secundário  segue uma imagem interna , não a realidade.”[2]

 

Dentro da filosofia das constelações familiares não há culpados nem detratores e sim, indivíduos agindo em prol de uma consciência coletiva familiar[3], que impacta diretamente em seus comportamentos e decisões.

O intuito do presente texto não é desmerecer aquele que busca através da Justiça a reparação por um dano sofrido, tampouco examinar o peso da dor que lhe é inerente. Também não se questiona aqui, a importância na postulação de direitos, nem defesa quando se é demandado, mas sim, a postura combativa que algumas partes se apresentam, especialmente em audiência de conciliação.

 

A concepção de culpa e inocência dentro das constelações familiares difere daquela usual do meio jurídico, possuindo um significado psíquico mais abrangente, indicando, entre muitos outros possíveis motivos, transgressões as leis sistêmicas, denominadas por Hellinger como ordens do amor: Pertencimento, Ordem e Equilíbrio.

 

Assim, se colocar no papel de vítima implica necessariamente em apontar a culpa ao outro, e poderá ser exercido tanto pelo autor como pelo réu. Desta forma, se estará sempre buscando uma retaliação, em evidente dificuldade de reconhecer que cada um é responsável de forma solidária pelo conflito.

A parte motivada somente em desempenhar o papel de “mocinho” ou “vítima” não quer reconciliar. Numa visão distorcida e inconsciente ser prejudicado ou vitimado é ter importância superior.

 

Aquele que se coloca como o inocente, alimentando assiduamente um sentimento de ser prejudicado, irá continuamente exigir reparação sem nada oferecer em troca.

 

E assim, o impasse permanece, perdendo-se a oportunidade de solução e crescimento pessoal, pois a cooperação de ambas as partes gera transformação através da releitura do conflito:

 

“(...) ao invés de ver o conflito como ameaça, devemos entendê-lo como uma oportunidade para crescer e aumentar a compreensão sobre nós mesmos, os outros e nossa estrutura social. Os conflitos nos relacionamentos de todos os níveis são o modo que a vida encontrou para nos ajudar a parar, avaliar e prestar atenção.” [4]

 

Neste norte, os métodos alternativos de solução de conflitos, em especial, as constelações familiares, têm se mostrado cada vez mais como meio de resolução eficaz, atingindo questões emocionais que vão além do que se manifesta processualmente. Objetiva-se a participação ativa dos litigantes, através de um olhar colaborativo e empático para pacificar o conflito e, por fim, se chegar a uma solução benéfica de forma conjunta, sem apontar para um mocinho e um vilão, reconhecendo a todos com igualdade e responsabilidade.

 

 

 

 

 

 

[1] MIRA Y LOPES, Emilio. Quatro Gigantes da Alma: O Medo, A Ira, O Amor e O Dever. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1966..

 

[2] HELLINGER, Bert. A fonte não precisa perguntar pelo caminho. Um livro de consulta. Patos de Minas, MG: Atman, 2007.

 

[3] “Essa consciência coletiva vela para que ninguém permaneça excluído (...). Essa consciência coletiva inconsciente impõe também uma outra ordem que exige que os que em antes tenham precedência frente aos que venham depois.” HELLINGER, Bert. A paz começa na alma. Belo Horizonte, MG: Atman, 2016.

 

[4] LEDERACH, John Paul. Transformação de conflitos. São Paulo, SP: Palas Athena, 2012

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