O Posicionamento do Advogado Sistêmico

03.02.2018

Um advogado é um profissional liberal, graduado em direito e autorizado pelas instituições competentes de cada país a exercer o jus postulandi. Isso quer dizer que é pessoa habilitada a prestar assistência profissional em assunto jurídico, defendendo judicial ou extrajudicialmente os interesses de um cliente. Também presta serviço público, visto que ao defender um direito particular, defende a própria ordem jurídica e a sociedade, que precisa do equilíbrio da justiça. Portanto, antes de qualquer qualidade ou nome que se conecte ao termo, ele é um patrono, defensor ou intercessor do direito positivado.

 

Tal entendimento pode ser extraído da leitura do art. 2° do Código de Ética da OAB, no qual temos a seguinte redação: o advogado é indispensável à administração da Justiça, é defensor do Estado democrático de direito, da cidadania, da moralidade pública, da Justiça e da paz social. Logo, o advogado não é portador da verdade e nem tem competência para decidir, sentenciar ou resolver o conflito jurídico do cliente.

 

A partir dessa primeira consideração, o que definiria o advogado sistêmico? Um profissional que busca constantemente seu desenvolvimento pessoal e profissional, com uso do Pensamento Sistêmico, considerado o novo paradigma da ciência. É imprescindível a mudança de mentalidade dual, cartesiana e mecanicista para a sistêmica.

 

Esse profissional assume a prática humanizada em seu atendimento ao utilizar habilidades e competências relacionais, como escuta, apoio, metaperguntas, rapport, empatia etc. Aprende a olhar para o conflito de modo diferente de como olhava para a demanda, buscando os contextos, como as relações se dão, o que e quem está relacionado com o conflito, os processos implícitos e os padrões que se repetem.  Convida seu cliente a olhar com amor para seu sistema e assumir a auto responsabilidade que lhe cabe, ampliando sua consciência para reconstrução do diálogo e possível consenso.

 

Advogado sistêmico não é terapeuta, mediador, conciliador ou constelador. Ele pode exercer esses papéis em algumas ocasiões ou assumir os conhecimentos que essas funções lhe proporcionam, mas exercendo a advocacia ele se mantém advogado. Como em todas as profissões, ele está aprimorando competências transversais, como resiliência, flexibilidade, inteligência emocional, social, pró-atividade, comunicação eficaz, pensamento sistêmico, planejamento, gestão, liderança e vários outros conhecimentos além daqueles adquiridos nos bancos da faculdade de direito.

 

A Gestão da Advocacia Sistêmica tem como missão levar esses conhecimentos à prática orientada e conduzir os advogados nessa jornada de autoconhecimento e aprimoramento. Promove a transformação da cultura do litígio para a cultura do consenso, por meio da mudança do indivíduo, dos seus modelos mentais, do seu comportamento, utilizando as técnicas e ferramentas de olhar sistêmico, consideradas inovadoras e eficientes nesse contexto: Coaching Sistêmico, Programação Neurolinguística, Constelações Familiares, Psicologia Positiva e Gestão Sistêmica.

 

A partir dessa compreensão, nós preservamos a advocacia sistêmica de conceitos rígidos ou definições prematuras, mesmo porque esse exercício profissional tem regras próprias, definições pré-concebidas e um código de ética e disciplina, os quais precedem quaisquer outras leis ou significados. É possível que muitos acreditem ser sistêmicos àqueles que utilizam a ferramenta Constelação Familiar, em nossa percepção um grande equívoco. Dizer que um advogado sistêmico é aquele que exerce a advocacia com base nas leis sistêmicas de Bert Hellinger ou constelando processos, seria uma injunção leviana e precipitada.

 

Não é papel do advogado peticionar constelações, nem instrumentalizar o que poderia ser facilitado com o atendimento humanizado. Não é missão do advogado sistêmico olhar com o mesmo amor para as duas partes, mas facilitar ao seu cliente que olhe para seu sistema com amor e autorresponsabilidade, buscando várias possibilidades que não a demanda judicial. E mesmo que um processo seja necessário, será observado o modo sistêmico de conduzi-lo.

 

A missão do advogado sistêmico não é unir o que está separado em razão de brigas, litígios ou desavenças, isso foge do papel do advogado, demonstra uma intencionalidade que não cabe a ninguém e um pré-julgamento de que unido seria melhor, ferindo as Ordens da Ajuda e os princípios sistêmicos.

 

Não é missão do advogado sistêmico solucionar conflitos, mas facilitar que seu cliente amplie sua consciência sobre os contextos em que os conflitos surgiram, sobre quem está envolvido diretamente e indiretamente, sobre os efeitos das atitudes de todos no sistema, sobre a condição de fluxo em que algo está de tal forma e não é de tal forma, mas principalmente sobre os padrões familiares que se repetem geração após geração de forma inconsciente. Compreendemos que o advogado apenas facilita a solução dos conflitos, pois somente as partes podem solucioná-lo.

 

Não orientamos que o advogado sistêmico traga a linguagem das constelações aos seus clientes ou à sociedade, por razões óbvias e coerentes com o exercício da profissão. Da mesma forma que um psicoterapeuta não fica descrevendo as técnicas e conhecimentos que usa, um advogado sistêmico não precisa levar a estrutura profunda que utiliza em seu atendimento.

 

Tratar as “Leis do Amor” como Leis que precedem o Direito Positivado e regem o universo demonstra falta de contato com a realidade, com o conceito de sistema, com a limitação epistemológica e falta de capacidade de transcender o conhecimento original de Bert Hellinger. Procurar por todos os tipos de atalhos mágicos para a expansão de consciência, mais cedo ou mais tarde, levará às frustrações das fórmulas mágicas, do místico, do Eldorado.

 

Como aplicador das leis, o advogado sistêmico percebe de que forma as normas jurídicas positivadas podem beneficiar a liberdade, o respeito, a dignidade, a verdade e integridade do cliente, e de todo o sistema envolvido no conflito. Atua orientando o cliente naquilo que ele busca, que é conhecer o seu direito conforme determinações legais, mas vai além, conduz o cliente a olhar para os objetivos pretendidos com esse direito, sejam eles claros ou ocultos, e também para a outra parte como detentora de direitos. 

 

Partindo da premissa ética de que o exercício da advocacia é incompatível com qualquer procedimento de mercantilização, a atuação do advogado sistêmico não deve ser de oferecer ao cliente constelações, terapias, sessões de coaching ou outra atividade. Quando um cliente busca um escritório de advocacia ele pretende encontrar um advogado. E é dever do advogado preservar, em sua conduta, a honra, a nobreza e a dignidade da profissão, zelando pelo seu caráter de essencialidade e indispensabilidade.

 

O advogado sistêmico como advogado que é, atua contribuindo para o aprimoramento das instituições, do Direito e das leis positivadas, estimulando a conciliação entre os litigantes, prevenindo, quando possível, a instauração de litígios. E para isso, não oferece um produto alheio ao exercício da advocacia, mas sim emprega os conhecimentos adquiridos como habilidades para prestar um serviço profissional que permite a expansão da consciência do cliente e a efetivação de seus direitos.

 

A atuação do advogado sistêmico se mostra muito útil em todos os ramos, em especial no direito de família. Digo isso, porque se na família, base da sociedade, não houver paz, como podemos cumprir nosso múnus de defensores da paz social? Como defender um membro familiar em ações contra outro membro familiar, sem que isso prejudique a paz?

 

O art. 3° do Código de Ética da OAB diz que o advogado deve ter consciência de que o Direito é um meio de mitigar as desigualdades para o encontro de soluções justas e que a lei é um instrumento para garantir a igualdade de todos. No entanto, muitas vezes, as normas positivadas não alcançam à compreensão dos clientes de um escritório de advocacia para essas colocações. Vejamos:

 

- A ação ou execução de alimentos, é suficiente para um filho que não recebe o devido auxílio alimentar de seu pai ou de sua mãe?

- A ação declaratória de alienação parental acolhe a revolta de um pai, vítima de uma mãe alienadora?

- A ação de divórcio litigiosa acalenta a mágoa de um cônjuge traído?

 

Quem atua com direito de família, sente que os processos judiciais muitas vezes só transportam a dor e o sofrimento de uma parte, com o nome de pedido, em direção a outra parte. E por mais que o advogado busque orientar o cliente dentro da lei, ele esbarra no muro que se constrói a partir da demanda judicial. Então, como um advogado sistêmico pode atuar, na medida de suas competências e habilidades, nessas demandas com temas tão íntimos? E como pode ele favorecer a pacificação do conflito?

 

Esses são temas de futuros artigos em que traremos nossas percepções. O que garantimos é que todo conhecimento sendo circular vem de uma co-criação em grupo, do exercício, do fazer e dos ajustes necessários. Não se constrói uma advocacia sistêmica do dia pra noite, estamos apenas começando e podemos a qualquer momento mudar nossas percepções, por enquanto são essas. Tudo flui!

 

Compartilhar
Share on Twitter
Please reload

Assine nosso canal
Please reload

CONTATO

[11] 94292-1740 - Marcella Santos

Unidade 1

Alameda Santos, 1773 - Cerqueira César

São Paulo/SP - CEP 01.419-100

[21] 98030-7444 - Luciana Ferreira

Unidade 2

Rua Augusta, 101   Sala 920  -  Consolação

São Paulo/SP - CEP 01.313-001

  • Gestão da Advocacia Sistêmica
  • Gestão da Advocacia Sistêmica
  • Gestão da Advocacia Sistêmica
  • Gestão da Advocacia Sistêmica
  • Gestão da Advocacia Sistêmica
  • Gestão da Advocacia Sistêmica
  • Tweeter

© 2018 Advocacia Sistêmica

© 2018 Gestão da Advocacia Sistêmica

Todos os direitos reservados.

WhatsApp GDAS